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65% renovável 65% dependente

Resumo executivo

Como pode Portugal produzir tanta eletricidade renovável e continuar dependente da energia que importa? Um automóvel a gasóleo não muda de combustível por haver mais painéis solares. É nesta distância entre o que produzimos e o que consumimos que começa o paradoxo energético português. Das redes ao armazenamento, da eletrificação ao nuclear, analisamos as condições para transformar produção nacional em menor dependência externa e maior competitividade económica.

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Autor
Gustavo Neves
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Portugal produz eletricidade cada vez mais limpa, mas continua a importar grande parte da energia que move transportes, indústria e edifícios. O próximo salto da transição não é apenas produzir mais. É substituir dependências.

No mesmo ano, Portugal conseguiu duas coisas que parecem incompatíveis. As renováveis representaram 65,6% do consumo bruto de eletricidade. E a dependência energética do exterior ficou em 64,9%. [DGEG — balanço energético]

Não há erro nos números. O que há é uma confusão frequente entre eletricidade e energia.

O sol, o vento e a água permitem produzir cada vez mais eletricidade em território nacional. Mas o automóvel que abastecemos com gasóleo, o avião que levanta voo, uma parte dos processos industriais e muitos sistemas de aquecimento continuam a depender de combustíveis que Portugal não produz. Podemos, por isso, ser cada vez mais autónomos na eletricidade e continuar muito dependentes na energia.

Essa diferença ajuda a perceber onde está o verdadeiro desafio português.

A conta da dependência chega todos os anos

Os transportes mostram o problema com especial clareza. O petróleo ainda assegurava 92% do consumo final de energia do setor em 2024. Os transportes eram também responsáveis por 54% das emissões associadas à energia e a procura de petróleo continuava a aumentar. [AIE — transportes]

Isto significa que uma parte importante do nosso quotidiano continua ligada a uma matéria-prima importada. Sempre que o preço internacional do petróleo sobe, ou que uma crise altera rotas de abastecimento, Portugal sente o impacto mesmo que esteja a produzir muita eletricidade renovável.

Em 2025, o saldo importador português de produtos energéticos foi de 5.579 milhões de euros. [DGEG — fatura energética] É um número difícil de visualizar. Para dar escala, corresponde anualmente a cerca de 1,7 resgates da TAP. [Comissão Europeia — TAP]

E o problema não é apenas português. A Comissão Europeia estimou em 427 mil milhões de euros a fatura de importações energéticas da União em 2024. Mesmo depois da crise, os preços industriais de gás e eletricidade permaneciam entre duas e quatro vezes acima dos praticados nos principais parceiros comerciais, dificultando a concorrência do bloco europeu. [Comissão Europeia — preços da energia]

A energia é, por isso, também uma política de competitividade.

O próximo salto é substituir, não apenas produzir

Durante boa parte da transição energética, a pergunta dominante foi quanto conseguimos produzir a partir de fontes renováveis. Essa pergunta continua a ser importante, mas já não chega.

A questão seguinte é mais difícil: quanta energia importada conseguimos efetivamente substituir pela eletricidade que produzimos?

Um automóvel elétrico não é apenas um automóvel com outro motor. Quando substitui um veículo a combustão, troca sobretudo petróleo importado por eletricidade. Uma bomba de calor pode fazer algo semelhante no aquecimento. Uma linha ferroviária eletrificada pode reduzir o consumo de gasóleo. Alguns processos industriais também podem migrar para eletricidade ou para combustíveis produzidos a partir dela.

Nem todos os consumos são eletrificáveis com a mesma facilidade. Nalguns casos, a substituição é cara, tecnologicamente difícil ou exige infraestruturas que ainda não existem. E reduzir o petróleo nos transportes não significa apenas trocar motores. A própria AIE considera que transferir deslocações do automóvel para transporte público, ferrovia, caminhada e bicicleta é uma das formas mais duradouras de reduzir o consumo de petróleo, a par da eletrificação dos veículos que continuarão a ser necessários.

A transição deixa, assim, de ser uma corrida apenas por capacidade instalada. Passa a ser uma corrida pela capacidade de transformar eletricidade de baixo carbono em mobilidade, calor e produção industrial.

Quando a rede passa a ser parte da política industrial

Há uma dificuldade adicional. Eletrificar mais usos aumenta a procura de eletricidade. E produzir mais não significa automaticamente conseguir entregar mais.

A AIE já identifica constrangimentos nas redes portuguesas de transporte e distribuição que estão a afetar os prazos de ligação de nova produção e de novos consumidores. O crescimento da produção solar distribuída e a eletrificação estão a aumentar a pressão sobre uma infraestrutura que não foi concebida para esta escala de mudança. [AIE — redes]

É aqui que as redes, o armazenamento e a flexibilidade deixam de ser assuntos técnicos de bastidores. Tornam-se parte da competitividade económica. Uma fábrica não escolhe Portugal porque há muitas horas de sol. Escolhe-o se conseguir contratar energia previsível, ligar-se à rede em tempo útil e operar quando precisa.

As interligações também contam. A nova ligação entre Portugal e Espanha reforçou em 1.000 MW a capacidade transfronteiriça, elevando-a para cerca de 4.200 MW de Espanha para Portugal e 3.500 MW no sentido inverso. [Comissão Europeia — interligação]

Mas a Península Ibérica continua limitada pela ligação ao resto da Europa. O projeto do Golfo da Biscaia deverá aumentar a capacidade de troca entre Espanha e França de 2.800 para 5.000 MW quando entrar em serviço, previsto para 2028. [INELFE — Golfo da Biscaia]

Mais interligação não significa automaticamente preços mais baixos. Permite também importar preços elevados. O seu valor está em reduzir o isolamento, dar saída aos excedentes, permitir importações quando a produção ibérica é insuficiente e tornar o sistema mais flexível.

E o nuclear?

A discussão sobre o nuclear costuma começar demasiado cedo pela conclusão. Ou é apresentado como solução inevitável, ou como tecnologia que nem pode ser considerada.

Há uma pergunta mais útil: que problema do sistema queremos resolver?

Solar e eólica produzem eletricidade de baixo carbono com custos operacionais reduzidos, mas são variáveis. Hídrica, armazenamento, interligações, gestão da procura, geração térmica e nuclear podem prestar serviços diferentes de firmeza e flexibilidade. A comparação deve ser feita entre soluções para a mesma necessidade, considerando o custo, o prazo, a escala, a segurança e o risco de execução.

As novas tecnologias nucleares merecem acompanhamento, mas ainda não devem ser tratadas como uma solução comercial disponível no imediato. A estratégia europeia para pequenos reatores modulares aponta para os primeiros projetos no início da década de 2030 e reconhece que o financiamento, o licenciamento, a normalização e as cadeias de abastecimento continuam a ser condições críticas. [Comissão Europeia — SMR]

Para Portugal, isto torna o teste particularmente exigente. Não basta perguntar se seria tecnicamente possível construir uma central nuclear. É preciso comparar o custo e o tempo dessa opção com as alternativas disponíveis num sistema relativamente pequeno, já fortemente interligado com Espanha e com elevado potencial renovável.

Também aqui não existe autonomia absoluta. O nuclear reduz a dependência de combustíveis fósseis, mas exige combustível, tecnologia, manutenção e cadeias internacionais. Painéis solares, baterias e turbinas também dependem de cadeias externas. O objetivo realista não é eliminar todas as importações. É reduzir vulnerabilidades críticas e diversificar riscos.

Talvez estejamos a medir a transição com o indicador errado

Os gigawatts instalados são fáceis de contar. Percentagens de eletricidade renovável também. Mas nenhum desses números diz, sozinho, se Portugal está a tornar a sua economia menos vulnerável.

Uma métrica mais completa teria de perguntar quanta da energia importada conseguimos substituir, quanto reduzimos a exposição a choques externos, que custo total pagamos pela energia entregue e quanta atividade económica conseguimos suportar de forma previsível.

É essa leitura que reconcilia os dois números do início. Portugal pode ter 65% de eletricidade renovável e continuar 65% dependente porque a transição avançou muito mais depressa num vetor energético do que nos restantes.

O passo seguinte não é desvalorizar o que já foi conseguido na eletricidade. É usar essa vantagem.

Se Portugal conseguir transformar eletricidade renovável em mobilidade, calor, indústria e energia firme a preços competitivos, os gigawatts começam a aparecer noutros indicadores: menor fatura externa, maior resiliência e melhores condições para atrair investimento produtivo.

A oportunidade portuguesa não está apenas em produzir mais energia limpa. Está em conseguir que essa energia substitua aquilo que ainda temos de importar.