Artigo

O Estado escreve para juristas ou para cidadãos?

Resumo executivo

A qualidade da legislação é tradicionalmente avaliada pela sua constitucionalidade, coerência jurídica e rigor técnico.
Este artigo defende que esses critérios continuam a ser indispensáveis, mas já não são suficientes.
Propõe-se a acrescentar um novo princípio de qualidade institucional: a legibilidade.
Um Estado que presume o conhecimento da lei deve igualmente assumir o dever de torná-la compreensível.
A legibilidade não é uma questão de comunicação.
É uma condição da igualdade perante a lei.

Publicado
Actualizado
Autor
Gustavo Neves
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Quando compramos um medicamento, encontramos na embalagem uma bula.

É um documento extraordinário por uma razão simples. Contém informação altamente técnica, juridicamente escrutinada e potencialmente crítica para a saúde de quem a lê. Um erro pode ter consequências graves.

Ainda assim, ninguém aceitaria que fosse escrita apenas para médicos ou farmacêuticos.

Pelo contrário. Todo o processo de elaboração procura garantir que uma pessoa comum consegue compreender aquilo que precisa de saber para utilizar o medicamento de forma segura.

Aceitamos este princípio na medicina quase sem discussão.

Por que razão não o exigimos também da lei?

Todos os dias, milhões de portugueses tomam decisões condicionadas por normas jurídicas. Trabalham, pagam impostos, abrem empresas, contratam pessoas, pedem licenças, candidatam-se a apoios públicos ou exercem direitos fundamentais.

Vivemos permanentemente rodeados por legislação.

Mas existe uma diferença fundamental.

Enquanto a bula é escrita para quem vai utilizar o medicamento, demasiadas vezes a lei continua a ser escrita como se o seu principal destinatário fosse quem a interpreta profissionalmente.

É aqui que começa o problema.

Durante décadas, habituámo-nos a avaliar uma lei pela sua constitucionalidade, pela sua consistência técnica ou pela sua articulação com o restante ordenamento jurídico.

Todos estes critérios continuam a ser indispensáveis.

Mas falta um.

A lei consegue ser compreendida por quem tem de a cumprir?

É surpreendente que esta pergunta quase nunca faça parte do processo legislativo.

Na prática, aceitamos que o Estado imponha deveres cujo cumprimento pressupõe a leitura de textos que uma parcela significativa dos cidadãos dificilmente consegue interpretar sem ajuda especializada.

Não porque lhes falte inteligência.

Mas porque o próprio sistema foi concebido sem considerar a experiência do destinatário.

As consequências desta opção são profundas.

A primeira é democrática.

Quando compreender a lei depende da contratação de um advogado, de um contabilista ou de um consultor, a igualdade perante a lei deixa de depender apenas do Direito. Passa também a depender dos recursos económicos de cada cidadão.

A segunda é económica.

Horas desperdiçadas a interpretar normas, investimentos adiados, processos repetidos, erros administrativos e milhares de pedidos de esclarecimento representam um custo invisível que raramente é contabilizado, mas que reduz a competitividade do país.

A terceira é institucional.

É difícil confiar plenamente num Estado cujas regras parecem inacessíveis para quem delas depende.

Talvez seja por isso que o verdadeiro desafio não seja apenas escrever leis mais claras.

Talvez seja altura de começarmos a falar de um Estado Legível.

Um Estado Legível não é um Estado simplista.

Nem elimina linguagem técnica quando ela é necessária.

Significa apenas que a compreensibilidade passa a ser considerada mais um importante critério de qualidade institucional.

Tal como avaliamos uma lei pela sua constitucionalidade ou pela sua coerência jurídica, devemos também perguntar se ela consegue cumprir a sua função perante os cidadãos.

Esta mudança parece pequena.

Na realidade, altera profundamente a forma como legislamos.

Hoje medimos praticamente tudo.

Medimos os tempos de resposta da Administração Pública.

Medimos a satisfação dos utilizadores.

Medimos o impacto regulatório.

Medimos os indicadores económicos.

Mas não medimos uma questão essencial.

Quantas pessoas conseguem realmente compreender uma lei depois de a ler?

É estranho.

Novamente, antes de lançar um medicamento, este é sujeito a inúmeros testes.

Antes de colocar um serviço digital em produção, realizam-se testes de usabilidade.

Antes de publicar um formulário, avalia-se se os utilizadores conseguem preenchê-lo.

Por que não fazemos o mesmo com a legislação?

Por que não sujeitar determinados diplomas a testes de compreensão junto de cidadãos comuns antes da sua aprovação?

Não para substituir a avaliação jurídica.

Mas para a complementar.

Da mesma forma que um teste de usabilidade não substitui o trabalho de um engenheiro, um teste de compreensão não substituiria o trabalho do legislador.

Limitar-se-ia a responder a uma pergunta extremamente simples:

As pessoas conseguem perceber o que lhes estamos a pedir?

Esta talvez seja a reforma mais importante.

Não simplificar a lei.

Mas mudar a forma como definimos uma boa lei.

Uma boa lei não é apenas constitucional.

Não é apenas tecnicamente rigorosa.

Não é apenas coerente com o restante ordenamento jurídico.

Uma boa lei é também aquela que permite aos seus destinatários compreenderem os seus direitos, deveres e oportunidades sem um esforço desproporcionado.

Num tempo em que exigimos serviços públicos centrados no cidadão, formulários intuitivos e plataformas digitais acessíveis, é difícil justificar que a própria linguagem do Estado permaneça fora desse esforço de modernização.

Talvez a próxima grande reforma da Administração Pública não passe apenas pela digitalização ou pela simplificação de processos.

Talvez passe por uma ideia muito mais simples.

Escrever o Estado para quem nele vive.

Porque um Estado verdadeiramente moderno não é apenas digital, eficiente ou transparente.

É também legível.